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Jornalismo para aproximar e desmistificar a política é o desejo de Nilson Klava

por Marcus Tullius

(Foto: Reprodução Twitter)

Essa questão de ser jovem, eu acho que não é desculpa, para você se afastar da política. Muito pelo contrário, você tem hoje vários livros, tem a internet que disponibiliza ali um mundo de conhecimento.

O jovem jornalista Nilson Klava, da Globo News, é presença confirmada no 11º Mutirão Brasileiro de Comunicação. Para entrar no clima, ele concedeu entrevista à jornalista Talita Salgado, da Arquidiocese de Goiânia, e partilhou um pouco da sua trajetória de jornalista formado recentemente, mas já muito antenado nos debates políticos brasileiros. Confira.

Nilson, você é um jornalista com experiência na cobertura de momentos importantes do cenário político brasileiro, acompanha de perto o cotidiano em Brasília e já teve oportunidade de estar em outros estados. A maneira de compreender a política muda de um lugar para outro?

Klava: Para mim, mudou completamente. Sou do interior do Paraná, depois fui estudar no Rio de Janeiro e, finalmente, vim para Brasília. Quando eu morava no Paraná, a política era muito mais local, muito mais relacionada aos problemas do meu bairro, da minha cidade e uma política muito mais próxima e familiar, por conta de vereadores, do próprio prefeito. Quando fui ao Rio, por ser uma grande cidade e por já ter sido capital do país, ali a discussão (apesar de também existir a discussão local) é muito nacional. Você tem a discussão a respeito do governo do estado, mas a relação entre o governo estadual e o nacional é muito importante. As discussões que eu tinha na faculdade com os meus amigos já eram de um caráter muito mais amplo, discussão de pautas federais e que mexiam com todo o país. Quando vim para Brasília, aí sim descobri o que é a política. Porque, em Brasília, com a proximidade junto ao Congresso Nacional, ao Palácio do Planalto, ao Supremo Tribunal Federal e vendo a política desenrolar assim, diante dos seus olhos, você percebe que as coisas são complexas. Quanto mais distante a gente está da política, mais fácil é simplificar a política nesta questão de lado, por exemplo. Quando você se aproxima, você vê a complexidade desse painel que é a política brasileira, das negociações, da fragmentação partidária. E você vê que essa questão de lado fica muito mais difusa, muito mais complexa, e você passa a analisar política de uma forma mais completa e uma discussão mais abrangente.

Como pensar e discutir política sem ser partidário?

Klava: Do ponto de vista do jornalista, é essencial discutir a política sem ser partidário. Costumo comparar com o jornalista que cobre esporte ou futebol. Se o cara falar que é flamenguista, os botafoguenses, os tricolores, os vascaínos vão passar a não acreditar na informação que ele está passando. Do ponto de vista jornalístico, você tem que ser apartidário. Você não pode apresentar nenhuma simpatia por partido A ou B, e sim mostrar a complexidade deste jogo de tabuleiro, deste jogo de xadrez que é a política. Você deve mostrar os interesses de cada um dos partidos, mostrar o que significa cada ação e onde o partido quer chegar com aquela ação. É você desmistificar o jogo político e mostrar o quão complexo é esse jogo.  É justamente o fato de você mostrar de forma isenta e independente os movimentos partidários e a complexidade desse jogo que vai fazer com que o repórter tenha credibilidade e que vai fazer com que a informação que ele passa tenha confiança e relevância por parte de quem está assistindo.

Assumir uma responsabilidade social é uma forma de política?

Klava: Para mim, com certeza, assumir uma responsabilidade social é uma forma de fazer política, porque é uma reação à ausência do Estado. E a gente percebeu isso no programa que fizemos, o “Rota Eleitoral”, na Globo News. A gente viajou o país, conversando com vários perfis de eleitores e a gente conheceu muita gente que vivia numa ausência completa do Estado e colocou a política como prioridade, fez política com as próprias mãos, e uma boa política. Até o exemplo da Lurdinha, em Salvador, ela vivia em uma região pobre da cidade, não tinha nenhuma escola e ela fez uma escola comunitária junto com os moradores da região, justamente para suprir uma ausência do Estado. Ou em Esteio, no Rio Grande do Sul, em que uma galera apaixonada por Hip Hop fez uma casa cultural, para receber outras pessoas que são interessadas pelo assunto, onde há uma biblioteca com computadores. Essa responsabilidade social, para mim, é uma forma de fazer política e é uma forma linda de se fazer política.

Fala-se muito que o jovem não sabe de política, porque não viveu uma parte dos processos da construção da realidade atual ou até mesmo que existe um desânimo diante do assunto. Como surgiu o interesse pela política e em que isso influenciou na sua vida?

Klava: Meu interesse pela política surgiu na universidade. Porque, como falei, quando cheguei ao Rio eu não tinha muito conhecimento sobre política e nem discutia. Era uma coisa que estava no meu dia a dia, porque a política, para mim, era uma realidade muito mais local do que uma discussão em âmbito federal, em âmbito de rumos do país e tudo mais. Quando cheguei à PUC, fiz uma aula chamada “Eleições desde a redemocratização”, com o professor César Romero Jaco, e eu já gostava de história. Assim, eu me apaixonei completamente pela política e pelo jogo político desmistificado e na sua total complexidade. E, a partir daí, comecei a sempre discutir muito mais política com os meus amigos de faculdade. Inclusive, criamos um canal na época, do Facebook, para discutir política, falar sobre política e virou meu sonho cobrir política em Brasília, usar o jornalismo justamente para fazer esse tipo de cobertura. E essa questão de ser jovem, eu acho que não é desculpa, para você se afastar da política. Muito pelo contrário, você tem hoje vários livros, tem a internet que disponibiliza ali um mundo de conhecimento. Então, o fato de você não ter vivido determinada realidade não o impede de conhecê-la. Costumo dizer que eu sou até um pouco saudosista de momento que eu não vivi e que eu conheci pelos livros, pelas conversas com colegas meus, que são muito mais experientes e viveram toda essa realidade. Essa troca é muito importante e se a gente quer entender o presente, antes de tudo precisa conhecer o passado, porque a história é cíclica, ela se repete muito e a brasileira, então, demais. Para eu entender o momento atual, preciso conhecer o passado e, por isso, essa questão dos livros, do estudo. Isso é muito importante, porque a gente não viveu esse momento, mas o conhecimento dele está ao nosso alcance.

Nas suas redes sociais, você demonstra um grande interesse pelo debate e, principalmente, por incentivar as pessoas a saberem mais sobre as questões políticas. Você acredita que esse conhecimento político contribui para o melhor exercício da cidadania?

Klava: Nossa, eu acho que é o grande objetivo da minha vida tornar a política interessante e aproximar a política das pessoas, mostrar como funciona o jogo, tenta desmistificar esse jogo para que haja essa aproximação. E eu acredito muito nisso, que o conhecimento do jogo do político ajuda muito. Primeiro, a desmistificar a política, segundo, a aproximar o eleitor da política, e terceiro, por meio dessa aproximação com o trabalho de fiscalização, você tem um melhor exercício da cidadania, um melhor exercício de cobrança. Porque, diante da ausência do Estado, uma reação, que pode ser a primeira, é justamente a desilusão e o afastamento da política. Mas quando você se aproxima dela e percebe que as decisões, que são tomadas na Praça dos Três Poderes, atingem direto e indiretamente a sua vida, você vai entender que é importante se inteirar sobre o assunto. É importante você cobrar, se aproximar e, se aquilo não estiver bom, mudar, mudar através do voto de quatro em quatro anos. A gente tem a possibilidade de escolher nossos representantes. Nós vivemos em um sistema representativo. Então, é por isso que essa aproximação é muito grande, porque se a gente quer ter voz na política, você precisa de um representante que justamente defenda as mesmas bandeiras que você defenda. Você está exercendo a sua cidadania, o seu posicionamento político e eu acho isso essencial.

Qual o papel do jornalismo na construção de uma sociedade melhor?

Klava: Eu acho que é um papel fundamental, porque o jornalismo é o responsável por intermediar informação. O jornalista está vivendo determinada realidade e o papel dele é descrever essa realidade para quem não está tendo a oportunidade de vivê-la. Então, eu acho isso muito importante, porque o jornalismo acaba oferecendo os instrumentos para a construção de uma cidadania, de um cidadão que viva plenamente essa cidadania, pois você só consegue exercer a sua cidadania se você tiver instrumentos para isso, se estiver informado da realidade social do seu país, se estiver informado sobre a política do seu país. Porque, assim você vai saber qual o rumo o país está tomando, quais atitudes que o seu representante está tomando e, a partir disso, criar uma visão crítica, cidadã.  Acredito que o jornalismo tenha o papel de oferecer, a partir da descrição de uma realidade, que o jornalista está testemunhando e vivendo, muitas vezes histórica, como por exemplo diversos momentos em Brasília.

Qual é a importância de eventos como o Mutirão Brasileiro de Comunicação?

Klava: Olha, eu acho que um evento que discuta e reflita sobre comunicação, jornalismo, é essencial. Porque, diante deste volume imensurável de informação com o qual a gente tem de lidar todos os dias, a gente acaba não tendo muito tempo para refletir, discutir a profissão, o veículo, a comunicação em si. Então, um evento que traga gente nova para essa discussão sobre a nossa profissão, eu acho que é essencial, ainda mais em um momento como este que a gente está vivendo, justamente de adaptação às novas tecnologias, de uma nova era e onde todo mundo está tateando no escuro, justamente por conta dessas novas tecnologias; todo mundo buscando uma nova forma de contar as histórias. Esse espaço reflexivo de discussão, de debate, é essencial para um crescimento de todo mundo e da profissão como um todo.

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