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Liberdade de expressão, responsabilidade e democracia são temas abordados por Charleaux

por Marcus Tullius

(Foto: Divulgação)

Com um vasto currículo e experiência em comunicação, João Paulo Charleaux é o conferencista da abertura no 11º Mutirão Brasileiro de Comunicação. Comunicação, Democracia e Responsabilidade Social, o tema principal do Muticom, serão os três pilares da abordagem de Charleaux. Para os comunicadores já entrarem no clima, gentilmente ele concedeu uma entrevista à jornalista Talita Salgado, da Arquidiocese de Goiânia. Ele aborda temas pertinentes sobre a situação atual da sociedade, momento político, capacidade de transformação pela comunicação e também a influência da Igreja Católica neste processo. Confira abaixo.

A partir de sua experiência como comunicador e estudioso do assunto, qual é a importância do debate sobre Comunicação, Democracia e Responsabilidade Social, tema do Muticom 2019?

Charleaux: Em 2019, precisamos falar especificamente sobre jornalismo. E precisamos dar respostas àqueles que ainda não entendem a importância da imprensa para a democracia. Em toda democracia liberal, os jornalistas cumprem o papel fundamental de acompanhar, fiscalizar e questionar o poder público de maneira crítica. Repórteres fazem isso na defesa do interesse de toda a sociedade.

Conversar sobre isso é uma forma de melhorar isso. É uma forma de pensar sobre o que fazemos como jornalistas e como fazemos também. E é uma forma de entender as dúvidas, de escutar as inquietudes e as críticas – muitas delas justificadas – ao trabalho da imprensa.

Mas a comunicação não se resume a isso. A liberdade de expressão é um direito de toda a sociedade. É um direito que precisa ser exercido e precisa ser defendido. E é isso que vamos fazer juntos nesse encontro.

Você acredita que as pessoas têm a compreensão do papel e da responsabilidade que possuem como cidadãs?

Charleaux: Sim. E não também. Essa compreensão nunca é completa, porque depende de um processo educacional e a educação é uma atividade contínua para todos nós ao longo da vida. Por certo, sabemos de alguns direitos inatos. Mas há nuances bem sofisticadas na cidadania, que precisam ser ensinadas e aprendidas. Essas nuances começam a aparecer quando nos colocamos como seres políticos numa vida em sociedade. Aí, complica. E é aí que a comunicação tem um papel fundamental.

Você acompanhou de perto realidades de conflitos em diversos países, além de situações desoladoras como a cobertura de grandes terremotos no Haiti e no Chile. Essas experiências influenciaram de alguma forma a sua compreensão acerca da responsabilidade social, por exemplo?

Charleaux: Sim. Situações extremas têm o poder de concentrar grandes lições em curto espaço de tempo. O valor da vida cresce quando a vida está em risco. Ver isso de perto impressiona. E comunicar sobre essas situações extremas é uma forma de aproximar os leitores dessas mesmas lições.

A comunicação pode transformar realidades?

Charleaux: Para o bem e para o mal. O fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson nos deixou uma lição muito valiosa sobre isso. Ele dizia que o fotógrafo sempre altera a cena humana por ele fotografada. Quando alguém percebe a presença de uma câmera, já não age da mesma maneira. O fotógrafo, mesmo quando se pretende neutro, influencia na realidade. O mesmo ocorre com qualquer outra pessoa envolvida em processos comunicacionais.

Na sua opinião, a respeito do cenário político brasileiro atual, sobre quais aspectos urgentes a sociedade precisa refletir?

Charleaux: Sobre democracia e direitos humanos. Esses valores foram muito contestados pelo atual presidente da República, Jair Bolsonaro, ao longo de seus 28 anos de carreira política. A tal ponto que ele declara ter como herói um militar condenado como torturador em ação declaratória na Justiça de São Paulo. A despeito das qualidades que Bolsonaro possa ter, eu acho preocupante que milhares de pessoas ignorem esses fatos tão graves, sinalizando que o respeito à vida e à dignidade humana não importam tanto. Isso é preocupante.

Cultura e educação têm uma ligação direta na formação de uma consciência de coletividade?

Charleaux: Sim. Cultura e educação têm papel em tudo. E eu acho que são processos de aprendizado. Cultura se cria, se desenvolve, se aprende. E educação também. Percebo que há certa aversão a essa ideia hoje no Brasil. Como se o valor do ser civilizado fosse inato. Não é. É cultivado. E temos de nos cultivar: lendo, estudando, ouvindo, conversando, contemplando, refletindo, aprendendo. Esse orgulho tosco da própria ignorância, como se fosse apenas um sinal de autenticidade e de rusticidade, não está com nada.

Por que é importante que a Igreja promova eventos como o Mutirão Brasileiro de Comunicação?

Charleaux: Porque a Igreja é importante e influente. Logo, tem grande responsabilidade também. A Igreja tem autoridade, é respeitada, querida e até temida por milhares de pessoas no mundo. Ela forma e informa. Ela é parte fundamental da nossa cultura, de tudo o que somos. É apenas natural que haja uma grande reflexão sobre comunicação no interior da própria Igreja.

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