Comunicação integral como chave ética para um Novo Humanismo

Comunicação integral como chave ética para um Novo Humanismo

12/04/2021 . Notícias do Muticom

Prof. Mozahir Salomão Bruck[1]

Esta não é uma reflexão, em sua essência, de caráter teórico. Antes, ao propor debruçar-se sobre a noção do que podemos entender como comunicação integral, inscreve-se como desejo de estabelecer nexos, vislumbrar caminhos e perscrutar possibilidades para sua afirmação.

De partida, assumimos que toda comunicação é tentativa e isso por si só significa considerar que toda ação comunicativa se desenvolve em circunstâncias de negociação, de disputa e, engendra-se, sempre, a partir de condições afeto-cognitivas e culturais-ideológicas dos atores envolvidos nessa relação – pois toda a comunicação é relacional. É, portanto, o duplo desafio desta reflexão: de um lado, a complexidade da comunicação e os dinâmicos e instáveis, opacizados e não-lineares processos dos quais ela resulta e, de outro lado, pensá-la na possibilidade em termos de uma realização integral (do latim integrare, “tornar inteiro, fazer um só”).

O processo comunicacional é uma vasta e complexa rede de relações entre pessoas, grupos, as instituições e seus ambientes natural, cultural, político e tecnológico, formando um ecossistema no qual tudo se interliga. Como afirmado no Diretório de Comunicação da CNBB, “cada pessoa é chamada a uma atitude contínua de cuidado e de compromisso consigo mesmo e com tudo o que faz parte dessa ambiência comunicativa”[2].

É preciso, assim, considerar que a ideia de uma comunicação integral pode mesmo ser modalizadora de nosso pensar e fazer comunicativos dadas as disposições, objetivos e modos de compreender o outro com o qual se relaciona – nos sentidos de buscar entendê-lo e abrir-se a ele. Por assim dizer, isso se concretiza na adoção de postura de dispor-se com empatia e generosidade hermenêutica às singularidades e particularidades do interlocutor.

Buscar construir uma comunicação integral parece significar, nesse sentido, estar firmemente disposto a aproximação e à conexão, e, de modo verdadeiro, à comunhão. Pressupõe abrir-se respeitosamente ao dissenso para a construção humanizada de consensos possíveis. É lançar-se de modo verdadeiro ao dialógico, pois só assim a diversidade e a alteridade, ou, por assim dizer, o eu e o outro, em nossa comum incompletude humana, poderão ser percebidas como construtos de um mundo menos fraturado e perdido de si próprio.

Em seus vários e tão significativos documentos e discursos que abordam a comunicação, o Papa Francisco tem manifestado sua visão de que os media se mostram ao mesmo tempo um campo fértil para o trabalho de evangelização, mas também uma ambiência de riscos para todos.

Pouco a pouco, o panorama da comunicação foi-se tornando, para muitos, um ambiente de vida, uma rede onde as pessoas comunicam, alargam as fronteiras dos seus conhecimentos e das suas relações. Sublinho sobretudo estes aspectos positivos, apesar de todos estarmos cientes dos limites e fatores nocivos que também existem” (Papa Francisco, 2019, Discurso por ocasião da Plenária do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais).

Pensar a comunicação integral, que integre e torne inteiro, é perceber e exercer a comunicação mais do que como ferramenta, como estratégia, e, principalmente, em perspectivas e paradigmas verdadeiramente relacionais e não apenas de modo informacional e verticalizado. E mesmo que essa comunicação integral exatamente nunca assim se realize, tal objetivo deve referenciar os comunicadores como norte e compromisso ético de atuação, pois entre as urgências do mundo está a da construção de políticas e modos de comunicar que se estabeleçam como alternativas aos velhos discursos persistentemente colonializados e excludentes, dos assédios do pensamento único e de abordagens do mundo simplificadoras e dicotômicas.

Ao reafirmar que a humanidade enfrenta atualmente “uma transformação de época caracterizada pelo medo, pela xenofobia e pelo racismo”[3], o Papa Francisco explicita seu entendimento que os movimentos populares podem representar uma fonte de energia moral para revitalizar nossas democracias. Aqui, o projeto de uma comunicação integral – porque dialógica e inclusiva – adquire fundamental importância. Despossuídos tanto de tantas coisas nessa vida, os mais humildes carecem também em todos os âmbitos da vida social – nas escolas, no trabalho, nos mais essenciais serviços públicos e, principalmente, nos media – de uma comunicação integral e integradora que deveria percebê-los em suas limitações e dificuldades e, em especial, em suas necessidades e desejos.

A ética comunicativa, fundada no diálogo e na tolerância, deve ser uma chave ética inteligível e sensível para que se aflore a potência da comunicação integral na contemporaneidade, e para que também possa servir de referência para um projeto possível de sociedade mais justa e fraterna e para a qual se deve buscar urgentemente uma cultura de paz, que pode se tornar possível a partir de um diálogo social autêntico, como salienta o Papa na Carta Fratelli Tutti:
O diálogo social autêntico inclui a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro, admitindo a possibilidade de que nele contenha convicções e interesses legítimos. A partir da própria identidade, o outro tem uma contribuição a fazer e é desejável que aprofunde e exponha sua posição para que o debate público seja ainda mais completo. (Fratelli Tutti, 2020, p.107).

Nos oito capítulos da Carta Encíclica Fratelli Tutti, o Papa faz uma vigorosa defesa de que ousemos a pensar e gerar um novo humanismo em um mundo aberto, constituindo para tal as melhores práticas políticas fundadas na tolerância e no diálogo social. Não parece exagero afirmar que a comunicação integral ganha, nesse sentido, importância fértil e imprescindível.

Se devemos respeitar a dignidade dos outros em qualquer situação, isso significa que essa dificuldade não é uma invenção nem uma suposição nossa, mas que existe realmente neles um valor superior às coisas materiais e independente das circunstâncias e que exige um tratamento distinto. (…) Assim, a inteligência pode perscrutar a realidade das coisas, através da reflexão, da experiência e do diálogo, para reconhecer, nessa realidade que a transcende, a base de certas exigências morais universais. (Fratelli Tutti, 2020, p. 111-112).

Um novo humanismo aponta a para necessidade de estruturais e urgentes mudanças no mundo em todos os campos da vida em sociedade. Mas significa também um decisivo reposicionamento do sujeito em relação ao outro e a si mesmo e do modo como coloca-se no mundo em termos dos universos simbólico, cultural e comunicacional. Francisco convida-nos a dialogar não só com aqueles que consideramos pessoas de boa vontade, mas com toda e qualquer pessoa que viva no planeta – um humanismo planetário, unindo toda a família humana num diálogo sincero.

Quando da Mensagem para o LII Dia Mundial das Comunicações Sociais (2018), o Papa Francisco nos chamou a atenção para o fato de que a comunicação é uma modalidade essencial para viver a comunhão : “ Imagem e semelhança do Criador, o ser humano é capaz de expressar e compartilhar o verdadeiro, o bom e o belo. É capaz de narrar a sua própria experiência e o mundo, construindo assim a memória e a compreensão dos acontecimentos. Mas, se orgulhosamente seguir o seu egoísmo, o homem pode usar de modo distorcido a própria faculdade de comunicar.” (Mensagem para o LIII Dia Mundial das Comunicações Sociais)[4].

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[1] Professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

[2] Diretório de Comunicação, CNBB, 2014.

[3] Prefácio do livro A irrupção dos Movimentos Populares: Rerum novarum do nosso tempo”.

[4] Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2019.

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